Sexta-feira, Maio 22, 2009

com licença, quero comentar mais fácil...

Bom, eu iniciaria este post indicando a leitura de um texto que usou falas de Nelson Pretto, publicada no dia 20/05 no Le Monde Diplomatique Brasil. O texto foi produzido por alunos da Faculdade de Comunicação da UFBA, e aborda temas como o acesso à informação, as licenças de softwares, as formas de produção dos softwares livres.

No início da leitura eu faria apenas ressalvas... Mas, assim como lia, fui vendo que, mais do que "deslizes", tratavam-se de sérios erros conceituais. Fico feliz cada vez que este assunto ganha visibilidade e entra no debate (até para podermos comentar e reconstruir), mas gostaria que todos lessem o texto com atenção.

Seguem então as ressalvas...

- os autores fazem menção aos softwares livres como sendo os quais é possível usar "sem pagar nada". Mas a questão não é exatamente essa... a questão gira sim, em torno da abertura do código, o que permite a rápida difusão dos produtos, a possibilidade de atualizações por qualquer pessoa interessada, de qualquer lugar, contribuindo para uma rede distribuída de desenvolvimento, construíndo desenvolvimento onde antes restava apenas consumir produtos fechados de grandes empresas...

- outro ponto crítico é quando os autores comparam um conhecido sistema operacional proprietário de código fechado com Linux, ingenuamente usado como sinônimo de "software livre". Os autores colocam que tal sistema proprietário apresenta uma "interface amigável", enquanto que "já o Linux, à primeira vista, parece coisa de outro planeta. O usuário comum, acostumado com a interface do Windows e sem conhecimentos aprofundados de informática, demora a habituar-se ao Linux". Não sei exatamente em que os autores se fundamentaram, mas o que temos notado é que, para o usuário que não tem familiaridade com nenhum sistema operacional, a familiarização com os sistemas livres é mais rápida do que com os proprietários... por que? pelo simples fato de que são inúmeras pessoas trabalhando nos softwares livres não só para deixá-los mais bonitinhos, mas para deixá-los mais acessíveis (como um cego consegue usar o windows?), mais leves e utilitários.

- no nosso grupo de pesquisa estamos com uma discussão sobre o termo "usuário", que vem de uma lógica proprietária de que, quem manuseia um computador está simplesmente "usando" um software pronto e acabado, fechado. Porém, com os softwares livres e também com todo esse modo de criação/produção, meio que viral, que tem se difundido (proliferado?) em redes pela web, notamos que estas pessoas, muito mais do que "usar", compartilham, produzem, enviam, transformam, criam os produtos e a própria rede. Alguns autores, como Alex Primo em seu livro Interação Mediada por Computador (Sulina, 2007), propoem outras nomenclaturas, como o interator. Assim, se é ingênuo chamar este sujeito de "usuário", pior ainda é fazer como os autores, que nivelam mais por baixo ainda: "Pensando justamente nesse tipo de consumidor, foi desenvolvido o Ubuntu - Linux for human beings" (grifo meu). Consumidor??? O mais interessante é que logo na sequência aparece uma fala de Nelson, justamente criticando tal ideia: "processo educacional tem que formar um cidadão para que ele seja autor, produtor de conhecimento e de culturas e não só um consumidor de informações" (Pretto, da entrevista)

- em certa hora, já convencida de que os autores da matéria não utilizam qualquer software livre, comecei a me perguntar se estes alunos sequer ouviram o entrevistado ou pensaram no que ele falou... Por exemplo, na sequência, pretendendo mostrar um pouco da expressividade dos softwares livres, os autores apresentam alguns dados de que grandes empresas utilizam estes softwares (será que o objetivo é só andar a contento de grandes empresas?) e que "Salvador, embora ainda não possua filiais de grandes empresas de produção de SL, é referência no desenvolvimento" de software livre (grifo meu). Pois veja bem, se a grande sacada dos códigos abertos é possibilitar um sistema distribuído de produção e não deixar toda a população a mercê de grandes empresas, faz sentido usar este parâmetro para dizer que Salvador também se destaca neste meio? Sim, Salvador se destaca, dentro de um sistema nacional e mundial de produção em rede, com desenvolvedores que tem se empenhado na busca de soluções colaborativas, mas será que isto deve estar atrelado a alguma "filial" de uma "grande empresa"? Repare que, colocando desta forma, parece que desevolvido é quem tem uma "filial" sucumbida aos interesses de multinacionais. Os autores nem pensam na possibilidade de criação de empresas locais, ou, porque não pensar em um meio de produção economicamente mais justo, como as cooperativas (vale a pena ver o exemplo da COLIVRE). Sim, tudo bem, mais afrente, no referido texto, aparecem outras opções, inclusive citam a própria Colivre, mas que "apostam no uso do SL, seja buscando benefícios financeiros ou por ideologia" (grifo meu). Será que, esta "aposta" é, ou por puro benefício financeiro, ou, contrário aos benefícios que um sistema economicamente viável pode proporcionar, por pura "ideologia"? Ou será que nossas ideologias permeiam todas as nossas decisões, inclusive onde vamos empenhar nossos esforços?

- é, inclusive, impressionante como se apropriam das palavras de uma integrante da cooperativa, chegando a seguinte conclusão:"O caso parece simples: as tecnologias desenvolvidas próximas à comunidade possibilitam o retorno mais rápido do capital investido para a própria comunidade." Não acredito que todos os princípios da Economia Solidária tenham sido resumidos a comprar e vender na porta de casa... Talvez seja interessante conhecer a proposta de economia solidária desenvolvida dentro da própria Universidade de tais alunos, a Ufba, como no PSL-BA (que não é um partido, aos que distorcem o que é falado...) ou o BanSol.

- uma ressalva: TWiki não é sistema de comunicação! Quem quiser saber mais sobre o assunto, pode consultar a tantas fontes disponíveis, dentre elas um artiguinho que publicamos recentemente... (TWiki e autoria colaborativa na web2.0: O GEC, seus sujeitos, produtos e processos) [em breve trarei o artigo completo aqui]

- mas o mais inquietante ainda estava por vir: "Em Salvador, o movimento Software Livre cresce quase que escondido, em meio ao frenesi pelos pseudo-super-novos Softwares Proprietários que economizam seu tempo, ou seja, pela sempre nova (e cara!) solução dos seus problemas. A grande sacada é sempre a da multinacional, que pensa de maneira organizada e inteligente na inserção dos seus produtos no mercado." (grifos meus)
Quase que escondido??? Talvez seja interessante que os autores, na semana que está chegando, deem uma passadinha no Free Software Bahia e no III Encontro Nordestino de Software Livre & IV Festival Software Livre da Bahia, que já conta com mais de mil inscritos... ou, para não acharem que é bairrismo, poderiam dar uma passadinha no Fórum Internacional de Softwate Livre (fisl10), que será realizado entre os dias 24 e 27 de junho, no Centro de Eventos da PUCRS, em Porto Alegre (RS), e que já conta com 4 mil inscritos (ver matéria na revista A Rede).
A grande sacada é sempre da multinacional? Será que uma única empresa, mesmo que grande, pode ter sacadas mais inteligentes do que uma rede mundial de desenvolvimento? Será que a forma mais organizada e inteligente de pensar é realmente da multinacional?


Bom, assim como falei no início, fico feliz por ver que o tema reverbera escritas... mas é lamentável que isto ocorra com tantos equívocos. Depois de ler este texto, recomendo sua leitura sim, mas é para que possamos utilizá-lo para discutir o que pulula nas ideias de alguns sujeitos.
E a grande questão das licenças, abordada no título, onde foi parar? e a produção coletiva, em rede e distribuída, cujas ações contrárias são criticadas logo no início do texto?
pois bem, com licenças mais flexíveis eu posso comentar (e produzir, e criar, e reconstruir, e editar...) mais fácil... é necessário pensar em um mundo onde, além de consumir, todos possam participar efetivamente em sua construção (isto era a cidadania que Nelson falava, não é?)


veja o texto original:

Com Licença, sim?

A disputa entre aqueles que defendem o uso dos softwares livres e dos que utilizam o softwares proprietários não envolve apenas questões tecnológicas. A escolha do usuário tem efeitos na política, na economia e no desenvolvimento sustentável de um país como o Brasil

veja a "entrevista" completa

Quinta-feira, Maio 21, 2009

muros e janelas da escola

seguindo na linha das postagens sobre arquitetura e educação, gostaria de citar esta frase que Jarbas achou no blog do Mario:


“A PASSAGEM DA “SOCIEDADE DO CONHECIMENTO” PARA UMA “SOCIEDADE DE CONHECEDORES” VAI ACONTECER NA HORA EM QUE AS ESCOLAS DEIXAREM DE ERIGIR MUROS E COMEÇAREM A ABRIR JANELAS.
(tradução de Jarbas)


A escola, aquela com muros e grades, modelos rigidamente estabelecidos, de fato, não contribui para o senso criativo, para a vontade de conhecer o mundo que vai além de seus muros.
Nesta semana eu estava relendo um texto do Coletivo NTC (grupo de Marcondes Filho), "o ser enquanto modo de existir ou modo de estar" e "movimento de cristalização do ser", do livro Pensar Pulsar. Ali pude relembrar que o homem, no seu estar-no-mundo, não é o centro, nem tampouco consegue fixar centralidades, pois é um dos tantos componentes em interação com uma vasta rede de determinações e relativizações, uma categoria móvel, flexível, oscilante, liberto de essencialismos (pp27). As certezas e os modelos seriam então formalizações, consolidações, cristalizações... que impedem as constantes oscilações e transformações do ser.
Dessa forma
A cristalização é um momento de morte do ser enquanto modo de existir; é o fim das pulsações, o derradeiro ponto de parada do motor que alimenta este próprio modo de existir. Não se nega que daí para frente esse corpo morto continue a se transformar, se decompondo, se transformando, tornando-se outra matéria. Essas mudanças, contudo, não partem de um movimento interndo do ser, que define sua própria existência, mas por ação de agentes outros, num processo de mudança por decomposição, no qual o estado de existir não é mais nucleado por um pulsar orgânico originário e organizador de si mesmo. (pp 29)

Se pensarmos dessa forma, à escola cristalizada só resta decompor-se... Mas quem sabe, depois de decompor-se (quebrar suas partículas em estruturas menores e não tão rígidas), surja novamente a vida necessária para quebrar seus muros e abrir janelas, portas, brechas... ou, quem sabe, articular-se mais organicamente com a sociedade como um todo, com todos os seus espaços (todos de ensino e aprendizagem).


Claro que este é meu olhar sobre esta instituição, mesclada com a lente de uma leitura.
Reconhecer que o objeto de observação é tal em função das própria práticas de observação é um grande passo em direção à dissolução de entidades estáveis, em direção a uma relativização que coloca o modo de estar como fundamento determinante.
Ou seja, eu, enquanto modo de estar, também estou em constante reconstrução, assim como transformo (ou contribuo com sua formação tal como está) todas as estruturas por onde transito (inclusive a escola). O olhar, representado pela escrita de sensações (simulação de uma realidade?), seria então uma pequena cristalização, uma consolidação provisória e, enquanto questionar as estruturas, estará em suspensão.

Quarta-feira, Abril 22, 2009

Além das massas


O RIPE (Rede de Intercâmbio de Produções Educativas), um projeto do Grupo de Pesquisa em Educação, Comunicação e Tecnologias (do qual sou membro), esta concorrendo ao Festival Bibliofilmes, com o filme "Além das massas" na categoria vídeo de uma crítica/recomendação a um livro. A votação popular começou no dia 18 no sítio http://www.bibliofilmes.com, e encerrará às 17 horas do dia 23.



Estou contando com seu voto!

Quinta-feira, Abril 09, 2009

Lablogatórios agora é ScienceBlogs!

A antiga rede de blogs sobre ciência - Lablogatórios - faz parte agora do grupo internacional ScienceBlogs.

http://scienceblogs .com.br/

Terça-feira, Abril 07, 2009

web semântica

Ano passado tive a grata oportunidade de ouvir Pierre Lévy em uma palestra, em que ele retomava alguns de seus conceitos clássicos, além de apontar as principais características da atual web, bem como os próximos desafios em seu desenvolvimento. Quando a web começou a ser representativa, ela se destacava por ser uma imensa enciclopédia, como o próprio Lévy (1999) já destacou. Alguns sujeitos planejavam e publicavam conteúdo, que era disponibilizado por meio de grandes sevidores... o que modificava um pouco os centros produtores e o tempo de produção de conteúdo/informação, afinal, publicar na web era um pouco mais rápido do que publicar um livro, por exemplo.
Mas, com o passar do tempo, com algumas demandas apresentadas pela sociedade e o desenvolvimento de algumas soluções tecnológicas (nem estas mais produzidas apenas em centros de tecnologia), a produção de conteúdo mudou ainda mais. Hoje qualquer sujeito com acesso a internet publica nela o que quiser. Lembro que no primeiro livro que li e Lévy, ele colocava um exemplo de um amigo que procurava outra pessoa e, através de um extenso caminho percorrido em diversos sites, tiveram algumas pistas que os levaram a encontrar tal pessoa. Que diferença... hoje a maioria dos meus amigos, amigos dos meus amigos, conhecidos distantes, todos estão a distância de dois ou três cliques! E não são apenas algumas pequenas pistas: são suas vidas inteiras e comentadas (que o digam meus colegas de academia com seus lattes, o "orkut acadêmico"), suas redes de amizades e comunidades as mais diversas, seus blogs, twitters, blogs dos amigos que remetem para eles através de feeds... enfim se a algum tempo eu poderia ter algumas pistas de uma ou outra pessoa, hoje uma legião enorme de pessoas constrói seus próprios passos na/com a web.
Isto transformou, inclusive os modelos de negócios, pois, mais do que nunca, é muito vantajoso saber os hábitos dos meus potenciais clientes (inlusive identificá-los neste "mar de gente"). Por exemplo, o google (AdWords) promete deixar o produto de qualquer empresa a dois ou três cliques de todos os seus clientes em potencial, que, por sua vez, vão recheando um imenso banco de dados.
A produção cultural também tem alterações significativas, principalmente por, além de consumirmos informações, também podermos produzir tantas outras com a cara da nossa cultura local, com visibilidade global, não apenas em texto, mas em qualquer linguagem a qualquer momento (principalmente com os editores online - a web como plataforma - que agilizam imensamente as trocas de informações e sua publicação, bem como potencializam as produções colaborativas entre sujeitos nos mais diversos cantos do mundo).
Com tanta informação era previsível que alguns problemas viriam à tona, como, por exemplo, a recuperação delas: como encontrar uma informação no meio de tantas? A classificação dos conteúdos por palavras chave/tags contribui para a indexação, mas ainda não dá conta da problemática. Pelo princípio da folksonomia, cada sujeito pode classificar os conteúdos que publica, agregando seu banco de dados a inúmeros outros criados por outras pessoas. Mas como fazer estes bancos de dados se comunicarem?
Nisto surge a web semântica, apontada por Lévy (naquela palestra) como o grande desafio para a web atual, chamada por alguns de web 2.0. Se cada pessoa tem a possibilidade de classificar seu conteúdo, ela vai fazê-lo guiada por seu quadro semântico-cultural (como ela entende o conteúdo e como se expressa para designar-lhe palavras-chave ou tags) e é daí que surgem os problemas: como criar um sistema que reconheça como semelhantes palavras nas mais diversas línguas, em plural/singular, expressões, sinônimos, palavras iguais com significados diferentes, neologismos, eventuais palavras escritas de forma incorreta, que consiga ser atualizado tão rápido quanto são criadas as tags e suas relações... A solução seria criar uma web que "entendesse" seu próprio conteúdo, sendo que ela própria o classificaria. É deste desafio que se ocupa a web semântica. Um exemplo disso é o grupo do próprio Lévy, IEML (Information economy meta language).

Nesta semana, eu e uma amiga, discutindo sobre este tema, encontramos um texto muito elucidativo de Sérgio Amadeu da Silveira(O que é web semântica?), do qual tiramos algumas conclusões (3):
1. a web não faz parte de nossas vidas apenas para acessar, mas nos comunicamos e criamos conteúdo, o que deve ser facilmente recuperado por quem criou ou qualquer outra pessoa
2. isso chama a atenção para os sistemas de indexação, pois os bancos de dados tradicionais não dão conta da complexidade e diversidade desta nova rede que emerge de tanta produção e criatividade individual e de novos coletivos (existe um novo conceito: os metadados, a web precisa "entender" a si mesma)
3. o tem tem demandado maiores esforços é na solução tecnológica que da conta da nova (e sempre em renovação) semântica da web: como fazer com que máquinas entendam o que as pessoas (com todas as singularidades da linguagem pelo mundo) escrevem, falam, desenham, filmam..., de forma que seja facilmente recuperável por quem criou ou qualquer outro



Disto tudo ficamos com algumas dúvidas, como isso muda o processo de produção, disponibilização e busca de conteúdos? Isto altera a estrutura da rede? Altera a educação? Eu penso que sim, mas precisamos aprofundar mais. Por isso nosso próximo passo vai ser no sentido de entender um pouco mais as alterações provocadas pela web na própria web (ou pelas pessoas e seus processos através da web), bem como traçar paralelos com nossos processos investigatórios.

Para quem quiser saber mais sobre web semântica, seguem alguns testículos:
SILVEIRA, Sérgio Amadeu da.O que é web semântica?. Revista ARede, Edição nº14 - maio/2006
W3C. Consórcio para o desenvolvimento da World Wide Web.

Qual o sentido da web? Revista ComCiência.
Tim Berners-Lee. Semantic Web Road map
A web inteligente - Blog da Tati
A web semântica é uma extensão da web tradicional
Entrevista com Pierre Levy e Rogério da Costa
Pierre Lévy: Nós em nós todos
Entrevista com Lévy p Estadão
Relato de uma experiência
Comentários sobre a entrevista com Ted Nelson no Roda Viva; ou, um visionário em busca de um software.
Cartografia da Web: um sistema de coordenadas proposto por Pierre Lévy

Quarta-feira, Abril 01, 2009

Para entender a Internet

hum, interessante
Para entender a Internet [livro em pdf aqui]
Eu já tinha visto esse livro em algum lugar, mas agora, pela indicação da Raquel, estartou algumas coisinhas...
O livro, além de trazer conceitos interessantíssimos, está inserido em uma proposta muito bacana: tudo que vem nesta versão estática do livro (porém beta) serve para que os leitores interfiram em tudo o que está ali, através do site, comentando, divulgando e remixando...

Bom, entrando na proposta, vou ajudar a "viralizar" a idéia e prometo que, em breve, trago novos posts sobre o assunto.

Para Entender a Internet

divulgando... III Encontro Nordestino de Software Livre e IV Festival de Software Livre da Bahia

Eu não poderia deixar de colaborar com esta iniciativa dos nossos parceiros.
É fundamental que, quem puder, participe: são boas discussões para renovar nossas práticas!
Banner Web III ENSL e IV Festival SL

Quarta-feira, Março 25, 2009

Steven Pinker: do que é feito o pensamento?


Ontem a noite, no Fronteiras do Pensamento, tivemos a oportunidade de ouvir o psicólogo e linguista canadense Steven Pinker, autor de livros como Do que é feito o pensamento, Como a mente funciona, Tábula Rasa e O instituto do pensamento.








Para ele, nossa mente e a forma como pensamos é o resultado de uma combinação genética e de influências ambientais.
Então o pensamento seria hereditário? Se fosse simples assim, gêmeos univitelinos (que são como clones) pensariam exatamente da mesma forma. Segundo Pinker, não pensam exatamente da mesma forma, mas compartilham muitas características morfo-fisiológicas do cérebro, muito mais do que pessoas sem parentesco. Isso pode ser notado, por exemplo, em gêmeos univitelinos que nunca se viram mas que apresentam aspectos comportamentais semelhantes.
Se considerarmos gêmeos que não possuem a mesma informação genética poderem ter outro exemplo disso: eles compartilham metade dos genes, enquanto que a outra metade se constitui da configuração aleatória de todos os outros do pai e da mãe, gerando um padrão diferente de qualquer um dos pais ou irmãos. Olhando o cérebro destes gêmeos (de acordo com as imagens trazidas pelo palestrante), a morfologia é mais parecida entre si do que de pessoas sem parentesco, e menos parecida entre si do que em gêmeos univitelinos.
Por outro lado, nem tudo o que pensamos e fazemos é "determinado" pela configuração genética. Mesmo que nossos genes nos deem um "código de funcionamento", suas partes são "ativadas" por estímulos ambientais. Ou seja, nossa cultura modela boa parte do nosso comportamento, independente da informação genética de cada indivíduo. Isto explicaria por que a idéia de comer minhocas ou gafanhotos provoca asco entre os ocidentais e não entre os orientais.

Ah, mas se fosse simples assim nem teria graça. Não é assim simples porque não existe nenhum padrão determinado para este esquema de funcionamento do cérebro e consequentes influências no comportamento humano e social. Porque do cérebro de cada indivíduo e da interação social entre eles, surgem padrões emergentes de pensamento e comportamento, o que é praticamente impossível de prever.

Por exemplo: indivíduos violentos que foram espancados pelos pais quando criança, são violentos por um fator genético ou pelos fatores a que foi exposto na infância? A princípio não sabemos. Pois os pais, para espancar seus filhos, também foram violentos, o que indica um forte traço genético. Mas o espancamento na infância "ensina" um padrão de comportamento, modelado pelo ambiente. Então, como tirar a dúvida? Analisar crianças adotivas espancadas? talvez...

Mas o que fica é que nosso cérebro trabalha com ilusões: ele faz uma leitura de mundo através de nossos olhos e o restante dos sentidos, lê isso de acordo com padrões genéticos e ambientais, alucina uma realidade (que o faz crer que é o real) e, de acordo com esta realidade construída (única em cada sujeito) responde com o comportamento humano.
Ou seja:
- nem tudo o que vemos existe
- o que vemos (ou a leitura do que vemos) não é igual entre os indivíduos
- tudo o que vivemos até hoje nos faz ter uma leitura específica do mundo
Ou seja, viveríamos em uma constante simulação de mundo?