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terça-feira, abril 07, 2009

web semântica

Ano passado tive a grata oportunidade de ouvir Pierre Lévy em uma palestra, em que ele retomava alguns de seus conceitos clássicos, além de apontar as principais características da atual web, bem como os próximos desafios em seu desenvolvimento. Quando a web começou a ser representativa, ela se destacava por ser uma imensa enciclopédia, como o próprio Lévy (1999) já destacou. Alguns sujeitos planejavam e publicavam conteúdo, que era disponibilizado por meio de grandes sevidores... o que modificava um pouco os centros produtores e o tempo de produção de conteúdo/informação, afinal, publicar na web era um pouco mais rápido do que publicar um livro, por exemplo.
Mas, com o passar do tempo, com algumas demandas apresentadas pela sociedade e o desenvolvimento de algumas soluções tecnológicas (nem estas mais produzidas apenas em centros de tecnologia), a produção de conteúdo mudou ainda mais. Hoje qualquer sujeito com acesso a internet publica nela o que quiser. Lembro que no primeiro livro que li e Lévy, ele colocava um exemplo de um amigo que procurava outra pessoa e, através de um extenso caminho percorrido em diversos sites, tiveram algumas pistas que os levaram a encontrar tal pessoa. Que diferença... hoje a maioria dos meus amigos, amigos dos meus amigos, conhecidos distantes, todos estão a distância de dois ou três cliques! E não são apenas algumas pequenas pistas: são suas vidas inteiras e comentadas (que o digam meus colegas de academia com seus lattes, o "orkut acadêmico"), suas redes de amizades e comunidades as mais diversas, seus blogs, twitters, blogs dos amigos que remetem para eles através de feeds... enfim se a algum tempo eu poderia ter algumas pistas de uma ou outra pessoa, hoje uma legião enorme de pessoas constrói seus próprios passos na/com a web.
Isto transformou, inclusive os modelos de negócios, pois, mais do que nunca, é muito vantajoso saber os hábitos dos meus potenciais clientes (inlusive identificá-los neste "mar de gente"). Por exemplo, o google (AdWords) promete deixar o produto de qualquer empresa a dois ou três cliques de todos os seus clientes em potencial, que, por sua vez, vão recheando um imenso banco de dados.
A produção cultural também tem alterações significativas, principalmente por, além de consumirmos informações, também podermos produzir tantas outras com a cara da nossa cultura local, com visibilidade global, não apenas em texto, mas em qualquer linguagem a qualquer momento (principalmente com os editores online - a web como plataforma - que agilizam imensamente as trocas de informações e sua publicação, bem como potencializam as produções colaborativas entre sujeitos nos mais diversos cantos do mundo).
Com tanta informação era previsível que alguns problemas viriam à tona, como, por exemplo, a recuperação delas: como encontrar uma informação no meio de tantas? A classificação dos conteúdos por palavras chave/tags contribui para a indexação, mas ainda não dá conta da problemática. Pelo princípio da folksonomia, cada sujeito pode classificar os conteúdos que publica, agregando seu banco de dados a inúmeros outros criados por outras pessoas. Mas como fazer estes bancos de dados se comunicarem?
Nisto surge a web semântica, apontada por Lévy (naquela palestra) como o grande desafio para a web atual, chamada por alguns de web 2.0. Se cada pessoa tem a possibilidade de classificar seu conteúdo, ela vai fazê-lo guiada por seu quadro semântico-cultural (como ela entende o conteúdo e como se expressa para designar-lhe palavras-chave ou tags) e é daí que surgem os problemas: como criar um sistema que reconheça como semelhantes palavras nas mais diversas línguas, em plural/singular, expressões, sinônimos, palavras iguais com significados diferentes, neologismos, eventuais palavras escritas de forma incorreta, que consiga ser atualizado tão rápido quanto são criadas as tags e suas relações... A solução seria criar uma web que "entendesse" seu próprio conteúdo, sendo que ela própria o classificaria. É deste desafio que se ocupa a web semântica. Um exemplo disso é o grupo do próprio Lévy, IEML (Information economy meta language).

Nesta semana, eu e uma amiga, discutindo sobre este tema, encontramos um texto muito elucidativo de Sérgio Amadeu da Silveira(O que é web semântica?), do qual tiramos algumas conclusões (3):
1. a web não faz parte de nossas vidas apenas para acessar, mas nos comunicamos e criamos conteúdo, o que deve ser facilmente recuperado por quem criou ou qualquer outra pessoa
2. isso chama a atenção para os sistemas de indexação, pois os bancos de dados tradicionais não dão conta da complexidade e diversidade desta nova rede que emerge de tanta produção e criatividade individual e de novos coletivos (existe um novo conceito: os metadados, a web precisa "entender" a si mesma)
3. o tem tem demandado maiores esforços é na solução tecnológica que da conta da nova (e sempre em renovação) semântica da web: como fazer com que máquinas entendam o que as pessoas (com todas as singularidades da linguagem pelo mundo) escrevem, falam, desenham, filmam..., de forma que seja facilmente recuperável por quem criou ou qualquer outro



Disto tudo ficamos com algumas dúvidas, como isso muda o processo de produção, disponibilização e busca de conteúdos? Isto altera a estrutura da rede? Altera a educação? Eu penso que sim, mas precisamos aprofundar mais. Por isso nosso próximo passo vai ser no sentido de entender um pouco mais as alterações provocadas pela web na própria web (ou pelas pessoas e seus processos através da web), bem como traçar paralelos com nossos processos investigatórios.

Para quem quiser saber mais sobre web semântica, seguem alguns testículos:
SILVEIRA, Sérgio Amadeu da.O que é web semântica?. Revista ARede, Edição nº14 - maio/2006
W3C. Consórcio para o desenvolvimento da World Wide Web.

Qual o sentido da web? Revista ComCiência.
Tim Berners-Lee. Semantic Web Road map
A web inteligente - Blog da Tati
A web semântica é uma extensão da web tradicional
Entrevista com Pierre Levy e Rogério da Costa
Pierre Lévy: Nós em nós todos
Entrevista com Lévy p Estadão
Relato de uma experiência
Comentários sobre a entrevista com Ted Nelson no Roda Viva; ou, um visionário em busca de um software.
Cartografia da Web: um sistema de coordenadas proposto por Pierre Lévy

quarta-feira, outubro 22, 2008

Pierre Levy em Salvador - Fronteiras do Pensamento

Ontem tivemos a luxuosa possibilidade de participar da palestra de Pierre Lévy em Salvador, através do programa Fornteiras do Pensamento.*, **
Por incrível que pareça, a vinda dele foi possibilitada porque outro palestrante não pôde vir.

Mas foi ótimo. Foi um apanhado fantástico de muitas das coisas que ele já apresenta em seus livros. Ele se deteve um pouco no aspecto de que a nossa sociedade e formada por camadas sobrepostas, ou extratos, da oralidade, da escrita, do alfabeto, chegando até a comunicação em rede. Esta, por sua vez, tem toda uma evolução histórica que a configura da forma como é na atualidade. Ele apresentou isso também na forma de camadas, que mais ou menos se sobrepoem (uma não elimina a outra, mas a transforma).
Ele fez um apanhado desta tendência da web 2.0, com seus espaços comunicacionais, reforçando ainda mais a sua teoria da inteligência coletiva. E, neste aspecto, chegou ao ponto que mais se deteve em sua palestra: a web semântica.
Vejamos, se eu me localizar em uma época onde as informações chegam até as outras pessoas através de livros, o caminho para achar a informação é ir até onde se concentram os livros, como por exemplo uma biblioteca, que usa um sistema numérico para classificar e organizar seus materiais. Porém hoje, com a web 2.0, como cada um é potencialmente autor de conteúdo, eu tenho uma infinidade de fontes de informação. Esta informação, por sua vez, é produzida dentro do repertório de cada um, e não de acordo com um jargão padronizado acadêmico. Hoje temos uma infinidade de informações sendo produzidas e divulgadas em todas as línguas (e não apenas em algumas dominantes), com vocabulários tão peculiares quanto a produção desta informação.
Então a web caminha para um grande emaranhado de informações disconexas? Estamos caminhando para que isto não aconteça, por isso o esforço deste pesquisador e seus colaboradores: desenvolver uma web semântica que reconheça e interligue aspectos similares e próximos de um certo tempo, ao mesmo tempo que afaste os aspectos que não dizem respeito ao mesmo tema.
A complexidade desta intenta pode ser parcialmente visualizada através do social bookmarking. Pra quem não conhece, bookmarkink é esse sistema de marcadores (tags) que cada um usa para classificar suas coisas (fotos, vídeos, posts do seu blog...). O social bookmarking é quando eu construo este sistema de marcadores com outras pessoas, partindo do que já foi construído e colabaroando com um conjunto que é disponibilizado para os outros. Eu posso convidar amigos ou construir isto em um espaço "público". Temos exemplos disso como o Delicious, o Digg, Rec6, ou mesmo o Technorati.
Isso funciona mais ou menos assim: eu classifico o meu material de acordo com algumas palavras-chave. Outra pessoa faz o mesmo. E outras também. O sistema então vai agregando tudo o que é marcado com uma determinada palavra. Isso é muito legal, porque cria um sistema de indexação voltado para o que e como é produzido, pois eu passo a ter assuntos novos (fenômenos que não existiam a algum tempo atrás e, portanto, não fazem parte dos sistemas de indexação tradicionais). Esse sistema de indexação onde o próprio produtor escolhe como seu material deve ser marcado, privilegia as linguagens próprias de sua produção, pois não faz sentido se eu produzo alguma coisa sobre a cultura baiana mas tenho que indexar esta produção com palavras padronizadas de um sistema americano...
Por outro lado, isso cria uma verdadeira balbúrdia linguística:
- existem diferentes palavras para falar da mesma coisa: como uma máquina vai saber que estamos falando da mesma coisa?
- se eu classificar meu material com a palavra no singular e vc no plural, caímos na mesma pergunta anterior...
- neologismos, siglas...
- tem também o fato de que uma mesma palavra tem vários significados: como uma máquina vai saber se eu falo da broca da furadeira ou da broca (aquele verme) que comeu a minha roupa?
- e sem falar também isso que eu coloquei acima das línguas: hoje temos muito mais visibilidade para as diversas línguas faladas no mundo. Se a algum tempo atrás o que determinava a língua em que um material seria publicado eram os grandes centros produtores de informação (a maioria concentrado em locais onde a língua inglesa é falada), hoje o que determina a língua da publicação é a língua falada pelo próprio autor, uma vez que a informação é publicada sem intermediários... Imagine o que isto representa para a língua chinesa por exemplo.
- ainda na questão das diferentes línguas faladas, temos o fato de que nenhuma língua é estática, a menos que já esteja morta (e mesmo assim ainda tem diferentes ressignificações..). Ou seja, se eu classifiquei meu material com uma palavra usado hoje, quem garante que ela ainda estará em uso daqui a alguns anos?

eu ainda acrescentaria outro aspecto nesta lista de Lévy, que estamos passando agora aqui nos países de língua portuguesa: vamos passar por uma reforma ortográfica que vai mudar a grafia de várias palavras e, mais do que isso, vamos conviver durante alguns anos com diferentes formas de grafias e, depois destes anos, é provável que isso tudo resulte em uma terceira forma de escrita que não temos a menor idéia de qual será!

Depois disso tudo, fica até difícil de entender como as pessoas se entendem... Mas se entendem justamente pelo aspecto humano das relações, e talvez aí resida a provável solução para o problema da web semântica: as redes sociais estão sendo cada vez mais apropriadas por diferentes pessoas, em diferentes contextos sociais, tornando as comunidades virtuais cada vez mais povoadas por diferentes vozes, que as vão construindo e reconstruindo a cada dia que passa.

Mas essa é a minha maneira de ver o assunto...

Nem todo mundo analisou desta forma. Um exemplo foi o próprio Muniz Sodré, que não concordou com uma série de aspectos abordados na palestra de Pierre Lévy, como a questão do tempo-espaço e as relações econômicas. Ele fez comentários, inclusive, que me deixaram bastante inquieta. Tão inquieta que pretendo fazer outra postagem dedicada a comentar tais comentários (desculpe pela redundância)

Vale a pena ver também como os jornais locais registraram o evento:
A Tarde: Pierre Lévy vê evolução da web com otimismo
Tribuna da Bahia: Conversa sobre Cibercultura
A Tarde (entrevista): "Estamos na pré-história da civilização digital"

Sule, que tava comigo, tb comentou lá no blog dela!

* a foto de Pierre Lévy foi retirada do site do evento, acesso em 22/10.
** este foi o ingresso que eu usei. Foto minha.